Mas como lidar com as emoções?

O Que Fazer com o Que Dói?

Medo, ciúme, raiva, tristeza — e o que a ACT propõe

“Não chora, filho” — e tudo começa por aí

Desde muito cedo, somos ensinados que emoções desagradáveis são um problema a ser resolvido. “Não tenha medo, é só uma sombra.” “Pare com esses ciúmes do seu irmão.” “Não fique triste por isso, já passou.” “Engole o choro.” Frases ditas com afeto, quase sempre por adultos que também aprenderam, lá atrás, que o que se sente de ruim deve ser apagado o quanto antes.

O resultado dessa pedagogia silenciosa é uma geração — várias, na verdade — de adultos que aprenderam a tratar emoções difíceis como inimigas. E que, ao primeiro sinal delas, partem para alguma estratégia de fuga.

O preço de fugir do que se sente

Os exemplos estão por toda parte. Para não sentir tristeza, eu bebo. Para não enfrentar o medo de avião, cancelo a viagem dos sonhos. Para não lidar com o ciúme, controlo o celular do parceiro. Para não sentir raiva, engulo o que precisava ser dito — e exploto dias depois, fora de hora. Para não enfrentar a ansiedade da entrevista, simplesmente não vou.

Cada uma dessas estratégias funciona — no curtíssimo prazo. O problema é que, ao fugir da emoção, fugimos também da vida que ela atravessa. Quem evita o medo de avião perde viagens. Quem afoga a tristeza no álcool acorda com tristeza e ressaca. Quem nunca expressa raiva acumula ressentimento. A emoção que tentamos calar tende a voltar, mais forte, ou então leva embora pedaços importantes da nossa vida no caminho.

Outra proposta: a ACT

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) parte de uma virada simples e radical: o sofrimento humano não vem apenas da dor, mas — principalmente — da nossa luta contra ela. Em vez de tentar eliminar emoções difíceis, a ACT nos convida a mudar a relação que temos com elas. Não para gostar do que dói, mas para não deixar que o medo de sentir comande nossas escolhas.

Alguns dos seus principais movimentos:

Aceitação. Em vez de gastar energia tentando não sentir, aprendemos a abrir espaço para a emoção. Sentir tristeza não é o mesmo que ser engolido por ela. O medo, o ciúme e a raiva podem estar presentes sem que precisem dirigir o carro.

Desfusão. Aprendemos a observar pensamentos como pensamentos — e não como verdades absolutas. “Vou passar mal no avião” deixa de ser uma sentença e passa a ser apenas uma frase que a mente está produzindo agora, e que pode ser observada sem precisar ser obedecida.

Contato com o presente. Boa parte do nosso sofrimento mora no passado que remoemos ou no futuro que tememos. Voltar ao agora — a este corpo, a esta respiração, a este momento — costuma ser mais simples do que parece e muito mais potente do que se imagina.

Eu observador. Existe uma parte de você que percebe a emoção, mas não é a emoção. Você sente raiva, mas você não é a raiva. Esse pequeno deslocamento abre uma margem preciosa entre o que sentimos e o que decidimos fazer.

Valores e ação comprometida. Em vez de perguntar “como me livro disso?”, a ACT pergunta “o que importa para mim?”. E convida a agir nessa direção, mesmo com medo, mesmo com tristeza, mesmo com ciúme. A coragem, aqui, não é ausência de medo — é fazer o que importa carregando o medo junto.

Sentir não é falhar

Talvez o maior aprendizado da ACT seja este: emoções desagradáveis não são sinais de que algo está errado com você. Elas fazem parte do pacote de estar vivo, de se importar, de amar, de criar vínculos. Quem ama, sente ciúme em algum grau. Quem perde, sente tristeza. Quem se arrisca, sente medo. Quem é injustiçado, sente raiva. O problema nunca foi sentir — foi ter aprendido que sentir era proibido.

Lidar com emoções difíceis, do ponto de vista da ACT, não é vencê-las. É aprender a caminhar ao lado delas, em direção a uma vida que valha a pena ser vivida. E isso, ao contrário do que nos disseram quando éramos crianças, pode incluir todo tipo de emoção — inclusive as que doem.

A coragem não é ausência de medo. É fazer o que importa carregando o medo junto.

Carlos Rodrigues Peixoto — Elemental Psicologia

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